Garotas jovens não deveriam morrer num sábado à noite

No ano passado saiu o CD chamado The 59 Sound, do grupo americano Gaslight Anthem. As fronteiras entre o emo e o indie nunca estiveram tão indefinidas. A crítica logo associou os caras ao jeitão Bruce Springsteen de cantar. Mas existe mais nesse grupo do que a mera semelhança com o “boss”: eles são, junto com o White Lies, os melhores representantes de uma estranha passagem que liga os pré-adolescentes emo ao hipsters do indie rock.
Sempre me preocupei com o futuro da juventude emo. Fico pensando nesses jovens de lápis preto e franjinha na testa daqui há dez anos. Será que eles vão passar por um total makeover e ingressar no mercado de trabalho engravatados e empequetados, ou será que o outfit emo será um prazer secreto compartilhado apenas nas festinhas tarde da noite?
Em termos musicais eu nunca me preocupei com os emos. Salvo uma ou outra banda picareta que busca pegar uma carona no momento e fazer dois finais de semana de sucesso, o movimento emo tem representado uma excelente época para ser adolescente.
A minha adolescência foi marcada pela degeneração da dance music em música de academia. Rock era aquilo lá de Seattle e todos os outros ouviam axé. Deve ser muito bom mesmo ser adolescente e poder ouvir Fresno e NX Zero. Adoro música eletrônica, mas é legal que um movimento razoavelmente bem difundido na molecada inclua música com guitarra, bateria e baixo. Thumbs up para o emo!
Mas o que parecia bom estava prestes a ficar melhor. Existe uma sinergia inexplorada até então entre o emo e o indie. É importante aqui não fazermos uma análise darwinista imaginando que todos os emos estão fadados a evoluir para hipters do indie rock, mas certamente um número expressivo de gente está fazendo essa passagem. E nada mais natural do que surgirem bandas que facilitem esse processo. Gente com um som meio emo, mas com a pinta meio indie.
É ai que entram o Gaslight Anthem e o White Lies. Deixando o White Lies para um outro dia, o Gaslight Anthem tem chamado bastante atenção por conta da sua eleição como o melhor álbum de rock pelos editores do site emusic e pela euforia de alguns com a sua escalação para o Lollapalozza desse ano.
As letras do Gaslight Anthem, sofridas e sensíveis, beiram o clichê. É gente se jogando do prédio, é gente tomando banho no rio para expiar os seus pecados, enfim, tudo o que vocês espera de mais uma bandinha emo, com a diferença dos vocais - que realmente parecem com o do velho Bruce - e uma guitarrada de fundo que lembre mesmo alguns dos maiores sucessos do indie rock.
Uma letra bem interessante - e evocativa desse movimento - é a de “High Lonesome”, que diz assim: ” So the ambulances came / They took your pulse and packed up your things / And the papers read / Some boys forget what the heart it brings / And the pounding in the street / Was your heart in four four time / And the taste of defeat / Was was never too far from your mind” E ai chega Maria, com diretamente de Nashville, com as malas a tiracolo e o vocalista pondera que ele meio que queira parecer com o Elvis. Ou seja, é isso ai.
Ao final de “59 Sound” - talvez o momento que define o álbum - o vocalista meio que lamenta o fato de jovens garotos e garotas morrerem num sábado de noite: “young boys, young girls, ain’t supposed to die on a Saturday night.”
Pronto: agora você já pode gostar de emo e posar de hipster indie rocker. A juventude está salva até o próximo sábado à noite.