“Gee Gee Gee Gee, Baby Baby, Gee Gee Gee Gee, Baby Baby…”

Imagem da capa do primeiro mini-álbum

Agora, isso é realmente sério. Música é arte. É algo que se faz para entreter, para encantar e para ajudar o homem, imerso nas agruras do mundo, a parar por um momento e refletir sobre como melodias podem revelar um lado mais belo e mais suave da existência. Desde a invenção do videoclipe a humanidade vem tentando conciliar essa experiência sonora com a visual. Muitos tentaram. Todos falharam. É exatamente aí que entra a música “Gee”, da Girl´s Generation.

A fórmula de “Gee” é muito simples: reúna um grupo de nove meninas coreanas, insira uma coreografia louca, que mistura passos da Beyoncé com o gestual da Hello Kitty, e repita um refrão curto e auto-evocativo mais de cinquenta vezes em menos de três minutos. O resultado é devastador.

Como tudo na Coréia é projeto - queria ser professor de gestão motivacional numa Escola de Administração em Incheon - o grupo também é uma iniciativa planejada, cujos contornos maquiavélicos não escapam mesmo à análise mais perfunctória.

A SM Entertainment, famosa empresa produtora de talentos, passou metade de 2006 e 2007 colocando teasers em revistas, na TV e na Internet sobre uma nova girl band (não confundir com a banda Girl). O elenco então revelado, composto por nove integrantes, alcançou grande sucesso logo com as suas primeiras aparições. É quase um time de futebol.

Não que isso seja uma particularidade coreana, mas me parece que a cena pop de lá tem pouco ou nenhum espaço para fenômenos da internet, tipo um Arctic Monkeys da vida, já que todo o espaço de mídia parece ocupado pelos produtos cartesianamente planejados dos chaebols musicais.

O clipe oficial de “Gee” é esse aqui:

Depois de tanta repetição fico pensando nos novos modelos de ensino que poderiam surgir a partir dessa melodia. O tempo que o refrão perdura no cérebro do ouvinte ultrapassa em muito o de qualquer criação de Claudinho & Bochecha e Latino juntos. Numa versão radio edit de Gee poderíamos ensinar o nome das capitais brasileiras e toda a tabela periódica de uma tacada só. Depois a Coréia do Sul é campeã nas Olimpíadas de Matemática e ninguém sabe o porquê.

Uma outra versão do clipe que foi lançada na internet dá destaque apenas á coreografia, enfatizando a dança das nove meninas sob um fundo branco. Parece um jogo dos sete erros já que as integrantes, vistas de longe, se distinguem apenas por alguns centímetros de altura e pela cor do shortinho. O fato delas mudarem de posição durante a coreografia também não ajuda em nada.

Como para tudo na vida, existe também uma versão com referências do universo Star Wars. A substituição das meninas por Storm Troopers dançarinos beira a genialidade. Como é que ninguém pensou nisso antes?

Mas é ao vivo que o artista de revela. Ninguém parece se importar com o fato de grande parte das apresentações ao vivo ser composta por playback. Playback feio é do Muse. O da Girl´s Generation é não só esperado como até comovente os pequenos trechos em que as meninas efetivamente cantam. A lógica da escassez explica tudo, menos o nome do grupo escrito como se fosse a marca da Walt Disney no fundo do palco. Achava que o enforcement da propriedade industrial na Coréia do Sul fosse mais sério.

Se ao vivo o artista se revela, é na adversidade ao vivo que se percebe o verdadeiro talento. Veja só essa gravação que as meninas fizeram na abertura de um jogo de vôlei. Ninguém merece cantar antes de um jogo de vôlei. O calor dos infernos que parecia fazer no estádio não ajuda em nada e a filmagem da televisão mais lembra aquelas transmissões de concertos na Ópera de Arame feitas pela CNT em 2002. É um lindo exemplo de superação.

Por fim, para quem interessar possa, já está disponivel no YouTube a versão com legendas em português. Se você preferir tem também uma dublagem em hebraico. Shalom!