3 dias de Primavera

A temporada européia dos festivais de verão está oficialmente aberta. O Primavera Sound, evento realizado entre os dias 27 e 29 de maio de 2010 fez as honras da casa da melhor forma possível. O Festival, que celebrou o seu décimo aniversário, adotou uma escalação quase que didática para o seu lineup, fazendo um retrospecto do que mais interessante aconteceu nos anos 80, 90, 00 e apontando as promessas para uma nova década.

Deixando de lado esse inicio de texto mais institucional, preciso dizer que essa é a segunda vez que vou ao Primavera. Tem coisas na vida com as quais o aperfeiçoamento é impossível, como compreender melhor as mulheres e o Vagner Love acertar a pontaria, mas em muitas outras o ser humano aprende com os seus erros e faz melhor na segunda vez. Esse foi o meu caso com o Primavera Sound.

Na primeira vez em que fomos ao PS, em 2007, ficamos no centro antigo da cidade (Bairro Gótico). Essa localização é ótima se você não conhece a cidade e quer dar umas voltas durante o dia. Mas quando chega a noite e vc precisa ir e voltar do Festival, toda a conveniência do hotel no centro vai por água abaixo. A ida é bem tranquila já que o Primavera é um dos poucos festivais europeus realmente grandes em que vc pode ir de taxi e, na volta, dormir num bom hotel quando tudo acabar. Depois dos trinta fica meio ridículo esse negócio de acampar no meio do mato, seja na Floresta da Tijuca ou em Glastonbury.

A volta é mais complicada porque praticamente não passa taxi no Parc del Forum, onde acontece o Festival, e os ônibus são poucos e disputados a tapa por pessoas ainda movidas pelo entusiasmo dos shows que acabaram de ver e pelo álcool e entorpecentes recém-consumidos em doses pouco saudáveis. Resta o metrô, que é ótimo, mas que fecha entre 1hs e 5h e pouco da manhã. Ou seja: ou vc vai embora antes de 1h, e perde grande parte do evento, ou espera o metrô abrir lá pelas cinco.

Nesse ano resolvemos ficar num hotel que abriu no ano passado, chamado Diagonal Zero, que fica do outro lado da rua do Parc del Forum. Se você pensa em ir ao Primavera no futuro, fica a dica. O hotel é ótimo, tem bons preços (principalmente se vc dividir o quarto), e se der sorte você ainda pega um quarto com vista para o Mediterrâneo e o Auditório, palco mais legal do Festival. Outra opção logo ao lado é o Barcelona Princess. Tem um Hilton nas imediações também, mas para se hospedar lá você precisa ser rico ou importante. Parece que eles verificam isso na porta de entrada.

Você percebe que um Festival vai ser legal quando, logo ao chegar na cidade, o taxista que você pega pergunta como está indo o Botafogo no Campeonato Brasileiro e passa o resto da viagem questionando a saúda mental do Dunga por não levar o Neymar para a Copa e não escalar o Daniel Alves como titular. Dani Alves, por sinal, foi tema de todas as corridas de taxi daqueles três dias em Barcelona, salvo por uma em que o taxista, sócio do Barça, resolveu nos contar das vezes em que ele viu o Ronaldinho e o Rafa Marques cheirando todas na noite de Barcelona.

O primeiro show que vi, no dia 27/05, não teve muita novidade: metade das músicas que o Surfer Blood tocou eu já tinha escutado de tarde enquanto passava uma hora na fila para pegar a pulseira do Festival e a banda passava o som no palco ao lado.

A banda é competente ao vivo, mas tocar logo no início do Festival nunca ajuda no quesito empolgação. Que digam os Midnight Juggernauts, que tocaram às 11hs da manhã no Fuji Rock Festival, em 2008. Nessa hora você está mais preocupado em pegar um pão com requeijão e um café com leite do que ficar dançando ao som de “Into the Galaxy”.

A seguir uma olhadinha no The Fall, banda que já tinha visto em 2007 e que voltou ao Festival por votação popular no fórum do evento. Aliás, o fórum do Festival merece um post em separado para comentar o folclore criado pelos usuários e a entidade quase mística e soberana que é o senhor Gabi Ruiz, um exemplo - para o certo e para o errado - da dinâmica de comunicação entre organização de Festival e seu público.

O show do The Fall é um exemplo claro de falha na Matrix. O vocalista estava vestindo a mesmíssima roupa que ele usou em 2007, os trejeitos eram os mesmos e o lineup trazia poucas novidades. Lembra da cena do gato que passa duas vezes na porta, lá no primeiro Matrix? É mais ou menos assim que eu me senti no show do The Fall.

Meio festival então migrou para o palco Ray Ban, com a sua linda localização, tendo o Mediterrâneo ao fundo, para ver o The Xx. O show é arrebatador. Os ingleses falam pouco e tocam muito. A simplicidade, tanto das músicas como da cenografia (que é toda montada só em cima de muito gelo seco e luz) compõe o clima ideal. Taí um hype que valeu a pena. Os singles “Vcr”, “Basic Spaces” e “Islands” foram cantados por uma enorme massa de adolescentes italianas e hispters franceses vestidos de cosplay do Phoenix.

Logo depois, no palco principal, o Superchunk fez um show empolgante, cantando os clássicos e anunciando que no final do ano sai um disco novo, incluindo as músicas do EP “Learned to Surf” do ano passado.

O Festival então se dividiu bem entre o pessoal que foi ver o Wild Beasts, no palco Pitchfork, e aqueles que foram prestigiar o Broken Social Scene, na esperança de ver a Feist. Não posso falar do show dos Wild Beasts porque fiquei com a segunda opção, mas soube que só tinha gente legal por lá. Seja lá o que isso quer dizer. 

O show do Broken Social Scene dividiu opiniões. Esse era um dos shows que eu estava mais animado para assistir, mas não sei se foi a ausência da Feist ou o início de uma possível chuva que me tiraram um pouco o bom humor. O coletivo BSC parece uma reunião de integrantes da burguesia folclórica carioca num bar obscuro da Lapa. Não dou um ano para eles tocarem na Fundição Progresso ou no Teatro Odisséia.

A moça que substitui a Feist nos shows é um caso especial. Nada contra você ser esquelética e desgrenhada. Nem contra você passar o show todo descalça (a Florence, dois dias depois iria fazer o mesmo com muito mais charme), mas a moça do BSC parecia estar sob o efeito de narcóticos fortes e só chegava perto do microfone na hora de cantar a sua parte em poucas músicas que dependiam do seu vocal (como “Shoreline” e “All to All”). O resto do tempo ela ficava zanzando pelo palco feito uma alma penada, olhando pro nada, pensando na vida e bebendo água. Queria um emprego desses.

O Big Pink fez um show complicado. Por mais que eu goste do disco, precisamos admitir que o grupo precisa de mais músicas que funcionem ao vivo. Na ausência de mais duas ou três músicas que possam ocupar o tempo e animar o pessoal, o jeito mesmo é tirar a jaqueta e bancar o maluco, estratégia que funcionou na apresentação no Primavera até os primeiros vinte e cinco minutos. Depois foi um marasmo só. Justiça seja feita: “Velvet” foi uma das músicas que mais contagiou a platéia nessa noite (mas, de novo, foi a terceira música do show, logo depois de “At War with the sun”). Assim fica difícil.

Nunca gostei de Pavement porque nessa época eu gostava de outras coisas inomináveis, mas devo dizer que descobri a banda depois da época e curti muito o show. Conhecidos por fazer shows irregulares, o grupo presenteou o público do Primavera com uma apresentação descontraída, cheia de hits e participações especiais. Destaque para a dancinha de um integrante do grupo com outro do Monotonix, que havia tocado mais cedo.

No final da noite, quando metade das pessoas do Festival já estava muito louca, entraram em cena os atos do Fuck Buttons, Delorean e Moderat. O Fuck Buttons atraiu uma platéia meio catatônica. Sentados na arquibancada do palco RayBan, adolescentes e tiozinhos eram hipnotizados e tinham os seus cérebros formatados ao som dos blimp, prank e tchzuu que saíam das carrapetas dos meninos.

O Delorean, jogando em casa, atacou o público com o seu ritmo que mistura o frescor dos Klaxons com o constrangimento de se assistir ao show dos irmãos Hanson. O Moderat, para fechar a noite, apresentou um show que seria ótimo se no telão da esquerda não ficasse aparecendo um microsoft error a todo momento e o som do sempre bugado palco Vice não deixasse o grupo na mão vez ou outra.

Contente com o saldo do primeiro dia fomos para o hotel, não sem antes passar para ver o palco ATP no qual, para uma platéia de sete ou oito pessoas, o Dr.Kiko tocava uma seleção de músicas muito estranha. Claramente o dia já tinha acabado.

A segunda noite começou com um dos shows mais aguardados: os fofos dos New Pornographers. O grupo todo foi, salvo a Neko Case. Ela deve continuar em reclusão depois de ter a sua música “People got a lot of nerve” identificada como uma profecia macabra na parte que relata a morte de uma pessoa por uma baleia orca no tanque de um parque aquático.

Com ou sem Neko Case o grupo se sustenta muito bem ao vivo. A sequência de hits e as boas faixas do disco novo (Together) garantem a diversão. Foi especialmente interessante ouvir “Sing me Spanish Techno” na Espanha, digo, na Catalunha.

A Best Coast tocou logo em seguida no palco Pitchfork. Diferente dos EPs, nos quais é dificil ouvir a voz da vocalista, já que a produção adota uma remixagem meio shooegaze infato-juvenil, no show a cantora se destaca e as músicas ficam boas sem todos os efeitos modernos e descolados que colocaram nos discos. Destaque para o momento em que a cantora disse estar sentindo um cheiro de maconha no ar. Agora conta uma novidade… O show foi bem legalzinho, mas para ser perfeito acho que faltou soltar um pastor alemão policial anti-drogas em cima da galera bem depois desse comentário cretino. Isso sim seria ousado.

Fiquei com a impressão de que no final do show ela agradeceu às “Internets”. Desse jeito mesmo. Finji que não ouvi e fui comer um perrito caliente.

O show do Spoon, logo em seguida, foi sensacional. Sou suspeito porque adoro a banda e foi o segundo show deles que vi. O primeiro foi na encantadora cidade de New Haven, nos EUA, e o grupo tocou num bar micro para uma platéia micra (e fazia um frio descomunal). Dessa vez o cenário foi outro e o público compareceu em grande número para prestigiar os americanos. As músicas do novo disco funcionam bem ao vivo, com exceção de “Is Love Forever?”, que só serve para quebrar o clima.

O Beach House tocou depois no palco ATP para um público igualmente gigantesco. A cenografia estranha, com quatro ombrelones brancos, cheios de fru-fru, cuja ponta piscava luzes de cores diferentes deram o clima da performance. Um luxo só.

No placo principal o Wilco voltou ao Primavera depois do show de 2007 para tocar para uma massa que cantou o show inteiro. “Jesus etc.” é certamente um dos grandes hinos indies dos anos 00 e o disco novo parece ter agradado.

Lá no palco Pitchfork o Cold Cave fez uma apresentação genial. As letras das músicas não são necessariamente as mais animadas, o grupo também não se move muito no palco, mas o público dança muito ao som de hits como “Love comes close” e “Youth and Lust”. Não sei se era por causa de algum problema na coluna, mas o vocalista passou o tempo todo cantando de perfil e olhando fixamente para a extremidade esquerda do palco.

Do show do Marc Almond só peguei “Tainted Love”, meio que indo em direção ao palco em que começava o show dos Pixies. Entre perder um bom lugar nos Pixies e ouvir o velho Marc cantar as agruras do amor manchado vestindo um blazer de lantejoula não tive dúvidas: foi “Tainted Love” na cabeça.

O show dos Pixies foi o time of your life de muita gente da platéia. As inúmeras cotoveladas e o desespero a la Beatlemania de uma brasileira muito louca na minha frente denunciaram que aquilo não ia acabar bem. Quando cinco tiozinhos na faixa dos quarenta começaram uma rodinha de empurra-empurra eu achei por bem sair dali rápido.

Lá nos confins do festival, no palco Vice, o Yeasayer encerrava a noite com um show feito para aqueles que levam o Brooklyn no coração, incluindo garotos de vestido e arco no cabelo e toda uma massa de gente de óculos de armação preta. Nessa altura do campeonato já não aguentava mais essa overdose de Brooklyn, mas o show da banda é bom, especialmente quando tocam hits como “One”.

No caminho de volta para o hotel, uma olhada no Bloody Beetroots Detah Crew 77 confirmou que o simbionte alienígena Venon jamais deveria ter trocado de hospedeiro e enveredado pela música eletrônica. Sorte do Homem-Aranha.

O último dia do festival começou no palco do Auditório Rockdelux, um dos cenários mais legais do evento. O Clare and the Reasons, acompanhados pelo lendário Van Dyke Parks tocaram por duas horas mágicas sucessos que maravilharam metade da audiência. A outra metade, cansada do show do Bloody Beetroots na noite passada, dormiu sem muita cerimônia.

 

Do lado de fora do escurinho do auditório, Florence and the Machine fez um daqueles shows em que você percebe que a carreira do artista está em transição. Apesar de ter feito sucesso com apenas um disco, claramente a Florence já tem postura (e infra-estrutura) de popstar. O risco agora é não exagerar, como pedir para a platéia cantar “Cumpleaños feliz” para a sua agente e seguir a coreografia de uma dancinha idiota.

Lá no palco ATP o Built to Spill voltou ao Primavera para continuar as reclamações do show de 2007, quando o vocalista mais brigou com a produção sobre a qualidade do som do que cantou efetivamente o setlist escalado. Nesse ano o equilíbrio entre chateação e música foi melhor para a platéia e a banda tocou clássicos como “Traces” e “Going against your mind”.

O Sunny Day Real Estate, de volta dos mortos, fez um show para os fãs que esperavam há tempos pela reunião da banda. Tocando logo de cara “Friday”, “In Circles” e principalmente “Seven”, o sucesso foi garantido.

Atrasado quase meia-hora, o Gary Numan ensinou a todos uma importante lição: nunca toque o seu principal (e para muitos o único) hit logo no início da apresentação. No segundo seguinte ao término da excelente interpretação ao vivo de “Cars” metade do público já tinha dado as costas e se direcionava para o show dos Pet Shops Boys no palco principal.

O último show que vi do Festival foi o dos Pet Shop Boys. Deve ser muito bom para a banda tocar para uma platéia gigantesca como a do Primavera depois de fazer aquele triste show na Barra da Tijuca em 2009. A cada apresentação da dupla aqui no Rio um número escandalosamente menor de pessoas fazem a viagem até o lugar que hoje se chama Citibank Hall para cantar “It´s a sin” no bis. Acho que em 2011 o show deles vai ser no quintal lá de casa. Garanto que teria mais gente e mais animação.

Curiosamente a escalação dos PSB foi duramente criticada pelos usuários do fórum do Festival, alegando que os anos oitenta já acabaram e que a dupla não tinha lugar como headliner num Festival do porte e com o perfil do Primavera. O show dos PSB desmentiu os detratores e empolgou a massa. Mais uma comprovação de que, na dúvida, a Internet está sempre errada.

Y así pasaron los días em mais um Primavera Sound.

As fotos que fiz por lá estão aqui e os videos aqui.